A idade de Brasília, para mim, só vai até onde vão minhas lembranças. Por isso, ela não tem 50, mas 30, como eu. De Juscelino, só vi o túmulo e a casa, que, criança, achei modesta demais para um presidente. De construção, vi subirem mais prédios “modernosos” e espelhados, que fugiam ao estilo de Niemeyer, do que os grandes blocos de concreto.
Sou de uma Brasília que já teve tão pouco trânsito que os motoristas se sentiam encorajados a voar ao invés de dirigir. Andar de bicicleta pelas ruas era deixar minha mãe em pânico. No país que matava mais no trânsito do que a guerra do Vietnã, a cidade de amplas ruas e poucos carros era palco de tragédias.
Também sou de uma Brasília cheia de verdes (vazios e inexplorados), que, surpreendentemente, conseguem sobreviver aos meses seguidos de seca tão intensa que nos acostumaram à Umidade Relativa do Ar a 10 ou 13 por cento, narizes sangrando, e suspensão temporária das aulas - tempo ideal de “filar” a piscina alheia ou entupir os clubes de associados do serviço público.
Já ouvimos, a cidade e eu, muito a respeito da politicagem. Quem é de fora adora dizer que somos berço da corrupção. Mas esquecem que as eleições são nacionais. A maioria da corja é eleita fora e vem sujar aqui. Certamente não somos berço. Se muito, somos a cama do quarto de hotel onde certos políticos aprontam em dia de semana.
Alguns notórios clichês, porém, são muito verdadeiros. Temos endereços em coordenadas cartesianas, nunca conseguimos marcar um encontro numa “esquina de tal com a tal”, é possível ver cair chuva na quadra ao lado sem sentir um respingo, é possível não ver chuva cair, nunca, por meses. Temos a fama de frios, mas só porque acostumamos a nos defender dos julgamentos “extradistritais”. Já nos referimos, em algum momento, a Procuradores, Juízes e Desembargadores, como “tio fulano”, “tia cicrana” ou “mãe e pai do beltraninho da escola”. E já houve um tempo em que nossa diversão de fim de semana era escalar “a tigela” do Senado Federal, em visita à Esplanada.
Passamos a infância reclamando que a cidade não tinha ninguém. Que era possível deitar no meio da rua aos domingos sem ser atropelado, e, agora, choramos de saudade por aqueles tempos de cidade pacata, quando se levava, literalmente, quinze minutos, para chegar a qualquer ponto. Uma cidade aonde as novidades gastronômicas, cinematográficas e musicais chegavam – e, às vezes, ainda chegam –, sempre, mais tarde. Onde ídolos, como Renato, Dinho e Rodolfo, já foram vizinhos, conhecidos de um parente, ou frequentadores da mesma escola que você, ainda que anos antes. Todo mundo conhece alguém que conhece alguém que conheceu a Mônica, aquela do Eduardo. Eu nunca a vi.
Daqui pra frente, porém, Brasília não é mais minha, é da minha filha. Espero que as coisas boas da cidade não desapareçam com o seu crescimento. Estou curiosa para ver que clichês brasilienses sua geração vai criar e usar. Quem sabe, se convidada, ela poderá nos contar a respeito dos próximos cinquenta anos da cidade.